segunda-feira, 24 de maio de 2010

Restart...

O ser nasceu, cresceu, morreu. Tinha feito tudo como lhe tinham mandado os funcionários do guiché das repartições de novas almas. Seguiu todas as indicações e conselhos dados antes de sair disparado da vagina de sua mãe. E agora estava ali especado, numa fila interminável para aquisição de novo corpo. Tinha acabado sozinho, morto numa cama de um lar qualquer, abandonado pelos filhos, sobrinhos e netos. Da outra alma que o acompanhou na sua primeira vida nunca mais ouviu. Havia transitado de estado há tempo demais e se tivesse adquirido um novo corpo até já devia estar a meio da sua adultez.
E vai daí talvez não que isto de adquirir um novo corpo é coisa que demora e a fila parece nem andar. Estava ali parado há quanto tempo, mesmo? Bom, a bem ver já nem se lembrava de há quanto tempo tinha morrido! E tinha sido a sua primeira morte, imagine-se! É coisa digna de ser memorizada!

Olhou para as almas que tinha à frente. Que monotonia. Todas iguais, coisas incorpóreas sem uma forma definida, todas partilhando a mesma falta de tom, a mesma falta de cor, a mesma... coisa indescritível que faz com que uma alma seja uma alma. E estavam todas tão caladas. Se pensasse bem nem sabia se as almas podiam de facto falar.
Suspirou (ou fez o equivalente para uma alma) e voltou a focar-se nos seus pensamentos.
Morrer não tinha sido assim tão mau. Quer dizer, morrer sozinho e abandonado foi, mas passar de um lado para a porta não tinha sido, de todo, desagradável! Assim que o seu corpo fechou de vez os olhos do outro lado, a alma foi encaminhada para uma salinha cor de carvão onde todos os desígnios da Vida eram explicados. Pesquisar pelos seus arquivos era, obviamente, facultativo. Mas já que se ia esquecer de qualquer maneira de todo a Vida anterior e de toda a fase de transcendência, porque não dar uma olhadela. E o que viu deixou-o abismado.

Éons pareceram passar antes de chegar a sua vez. Vogou em frente (porque as almas não andam) e entrou na nova saleta. Daqui para a frente era fácil, sofria-se uma lavagem e estava-se apto a ter uma nova vida. E assim foi.

Assim que os funcionários do guiché da repartição de atribuição de novos corpos abriram o alçapão a alma fechou o equivalente aos olhos e deixou-se levar, deixou apagar tudo o que trazia dentro de si, toda a preocupação, toda a comoção, toda a memória...

E eis que chega o momento em que os olhos do corpo se abrem pela primeira vez. E assim que percebe quem o carrega, a última memória da alma deixa de existir. Pois quem o trazia aos braços era o corpo da alma que a primeira vez o acompanhou.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Spoiler: ela morre.

Ali só existia luz e alegria, o seu riso ecoava e dava-lhe energia para mais. Dançava e brincava, possuida por uma liberdade a que não sabia dar valor. A sua imaginação criara uma realidade perfeita o suficiente para a enganar. Brincava sozinha imaginando amigos nas sombras e reflexos dos espelhos que limitavam a sua existência.
Um dia, a área pré-frontal do seu cérebro desligou-se e ela percebeu que estava presa na imagem que tinha criado do mundo. Olhou à sua volta e viu o seu próprio reflexo nos espelhos, olhou a imagem da realidade que tinha criado e chorou por ter vivido tantos anos enganada na sua mente fértil e infantil. A revolta inundou o seu espírito e num acto de desespero quebrou todos os espelhos com os punhos cerrados. O sangue de menina inocente pingava e manchava o vestido branco. O cabelo despenteado colado à cara pelas lágrimas dava-lhe um ar de louca, a imagem assustava-a e num novo impulso quebrou o resto dos espelhos. No fim, quando à sua volta jaziam apenas cacos, respirou fundo e sorriu ao ver o novo mundo que tinha para viver.
Rapidamente percebeu que neste mundo a luz era escassa, bem como a alegria e que raras vezes o seu riso ecoava. Os amigos não eram de fiar e havia sempre segundas intenções por detrás de cada atitude. Estava presa a um novo mundo, um que não podia controlar e um de que não podia fugir. Arrependeu-se de ter quebrado as paredes que a protegiam da realidade, desejou poder voltar atrás, chorou e pediu a quem passava que a ajudasse a voltar a ser a pessoa que era antes. Correu suja e descalça pelas ruas e gritou assustada ao deparar-se com novas aterradoras realidades. No auge do desespero, perseguida pelas sombras que vivam na sua mente, não viu o fim do molhe onde rebentavam as ondas violentas e segundos antes de perder a vida, respirou fundo e sorriu,  tinha encontrado a calma e o silêncio.

domingo, 2 de maio de 2010

O Monstrinho das Bolachas

Era uma vez um Monstrinho muito guloooso! Ele só pensava em comer. Um dia, aquele badalhoco deitou a casca da banana para o chão depois de a devorar em 3 dentadas quando a mãe ia a passar. Conclusão: PUM!, a mãe caiu no chão.
- Aiaiaiaiai!
- Que foi, mãezinha?
- Tu sabes bem o que foi, seu porcalhão! Deixaste a casca da banana no chão e agora eu caí... Logo hoje que tinha tantas bolachinhas para levar ao concurso!
- Oh mãezinha, desculpa! Eu levo as bolachas!
- Não levas nada que guloso como és comias tudo pelo caminho.
- Prometo que não como nem uma!
- Está bem, mas se comeres uma que seja ficas de castigo!


E lá foi o Monstrinho com o cesto das bolachinhas. Pelo caminho deu-lhe a fome:
- Ai que fominha!!! Mas prometi à mãezinha que não comia nenhuma bolachinha... Vou contar flores para me distrair!
*uma florzinha, tralala; duas florzinhas, tralala, três florzinhas, tralala*
- Ai que fooome! Mas tenho de resistir..
*uma florzinha, tralala; duas bolachinhas, tralala*
- Pronto, como só uma! A mãezinha não precisa de ficar a saber.
*crunch crunch crunch*
-Só mais outra! E outra. E outra.....


Quando deu por ela, o cesto estava vazio. O Monstrinho tinha comido tudo!
- E agora, o que faço? Se a mãezinha sabe fico de castigo... E agora? Não vou contar nada.
O Monstrinho foi para casa, muito triste e preocupado. Quando chegou estava cheio de dores de barriga.
- Seu guloso! Dói-te a barriga porque comeste as bolachinhas todas!
- Oh, mãezinha, desculpa! Mas tinha tanta fome...
- Mentiroso! Comeste uma banana e um pão com manteiga antes de saíres, como é que tinhas fome?
- Mas mãezinh...
- Já para o castigo!

(Agora havia mais 3 ou 4 linhas de história mas adormecia sempre antes do fim. E certos pormenores estão ao lado devido à carga de sono que me inundava o espírito depois das 21h)

Moral da história:
Não se desobedece ao papá nem à mamã. Eles é que sabem o que é melhor para nós.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Duas cópias, três vezes os verbos, cinco vezes os erros e dez contas de somar. Tantos trabalhos de casa para as férias...! Até parece que a professora tinha medo que ele se esquecesse de ler ou contar. Ele não era burro e até era o melhor aluno a Estudo do Meio! Mas também gostava de jogar futebol nas férias e de brincar com os vizinhos na praia, e com tanto trabalho de casa não ia ter tempo de fazer as coisas de que gostava. Não, isto não estava nada bem. Arrumou a mochila dentro do armário para a mãe não ver que havia trabalhos de casa e foi para a rua brincar.



Era o primeiro dia de férias e ele não parava quieto. Só queria correr e brincar com os amigos. Até tentou esconder a mochila dentro do armário. Não se ia escapar aos trabalhos de casa, claro. Um miúdo de 7 anos não sabe mais que a sua mãe e claramente não vai saber ler e escrever em Setembro se não continuar a praticar nas férias. Mas por outro lado, só tem 7 anos...
Hoje vai brincar o dia todo e aproveitar o início do Verão. Só hoje.
Só hoje...
Hoje é mesmo um bom dia para sair à rua e brincar na relva fresca, sentir o ar quente na pele, parar e olhar para o céu azul como se não existisse nada mais bonito no mundo...
Era tão bom se hoje, só por hoje, não existissem burocracias e responsabilidades oficiais.

Hoje, só por hoje, o dia não teria desilusões.
Correu, pegou nele e foram brincar para o jardim.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Era uma vez uma novela mexicana

A noite estava quente e a cidade pulsava com vida e animação. Os grupos de jovens sucediam-se uns aos outros sem chamar atenções. Eles os cinco (sete se contarmos com as duas garrafa de whiskey) não eram excepção. Tudo parecia correr sobre rodas até que no fim da noite, Miguel olha para trás, por entre o ar enevoado e o vento que se faz sentir só no seu equilíbrio e se depara com o seguinte espectáculo: Ricardo, depois de ter bebido sozinho uma garrafa de whiskey, olha de forma lenta, demorada e eufórica na direcção de Mauro. Nessa altura percebe que as duas meninas que os acompanhavam desapareceram à primeira oportunidade (consegue vê-las ao longe agarradas a um rapaz alto e bem disposto... A sua cara não lhe é estranha). Ricardo continua a olhar para Mauro enquanto este acaba de beber a última garrafa, de um só trago. Miguel percebe o que se vai passar a seguir mas não quer acreditar.
Ricardo atira a garrafa ao chão e manda um murro a Mauro. Não há surpresa da parte de Miguel - o mesmo não se pode dizer de Mauro. Este levanta-se cambaleante do chão (o vento também o ataca) e olha com ar ameaçador para Ricardo que não consegue esconder o seu imenso sorriso de satisfação. Miguel pensa para si que durante toda a noite andou enganado, convencido de que eles poderiam ser amigos. Não podia estar mais errado. Nem ele sabia até que ponto.
Enquanto Mauro luta para descobrir um fio condutor no seu pensamento que lhe permita discutir com Ricardo este empurra-o contra a parede e dá-lhe um beijo longo e demorado. As pessoas passam na rua nessa quinta-feira em Coimbra, em frente ao TAGV. Enquanto Mauro, sem reacção, conhece um novo aspecto das relações inter-pessoais dos jovens, todo o seu curso passa por ele. Caloiros, doutores, veteranos... Havia jantar de curso e dirigiam-se todos à AAC. O choque inicial espalha o silêncio por entre o grupo maioritariamente trajado. Como se não bastasse, todas as raparigas bonitas de Coimbra e arredores decidem ir ao TAGV tomar café. É nessa altura que Margarida se depara com a cena bizarra que se desenrola perante um público cada vez maior e mais animado.
Não tarda para que se comecem a ouvir aplausos e assobios. Margarida apercebe-se nessa altura de que Miguel está na fila da frente, um tanto ausente psicologicamente. Dirige-se a ele, puxa-o por um braço e senta-o num canto de onde continuam a ver a cena.
Quando o beijo parecia nunca mais acabar, Ricardo percebe que perdeu controlo sobre o seu consciente e olha em pânico para a assistência e para Mauro. Este ainda não conseguiu encontrar um único neurónio funcional... O olhar de Margarida e Miguel cruza-se e ele foge para o TAGV. Deixando Miguel nas escadas, encostado à parede e tapado com uma capa, Margarida corre atrás de Ricardo, tentando evitar que ele se feche numa casa-de-banho e corte os pulsos.
Ao entrar no TAGV, Margarida percebe que vai ter de entrar na casa-de-banho dos homens. Oh well, não se deixa um amigo a definhar numa casa-de-banho só porque as regras sociais dizem que não se deve entrar em determinado sítio. Ricardo não está lá. Margarida sai e corre para o telhado mesmo a tempo de impedir que Ricardo decida terminar com a sua vida e salte. Depois de um abraço silencioso e palavras de paz e conforto Ricardo pára de chorar e enrosca-se num canto. Aparece Leonardo, o seu amigo viajante que por acaso tinha voltado nesse dia e chegara a tempo de assistir a toda a cena. Ricardo não consegue aguentar mais e confessa-lhe todo o seu amor e desejos reprimidos. Leonardo por fim admite que nunca teve namorada, era tudo uma grande mentira para encobrir a sua homossexualidade. Olham um para o outro, sorriem e Margarida percebe que é altura de ir. Nas suas costas o par abraça-se e beija-se.
Cá em baixo Mauro ainda não encontrou dois neurónios funcionais e também ainda não largou a garrafa vazia. Margarida chega a tempo de o ver olhar para ela com ar perdido. Miguel está no mesmo sítio, a dormir tapado e agarrado à capa, a sorrir. Com alguma dificuldade Margarida e Miguel conseguem meter Mauro num táxi. Cerca de cinco euros depois atiram-no para a banheira. Margarida ajuda Miguel a deitar-se e tapa-o. Ele adormece e ela vai para casa. Pelo caminho pensa nas voltas que a vida dá e remata com o pensamento "Eu sabia. Acerto sempre". A Lua Cheia está laranja apesar da hora adiantada da madrugada e o vento quente acalma-a. Não lhe apetece ir para casa mas sobe a rua consciente de que se vai deitar e dormir. Amanhã quando acordar há mais uma aventura para viver.

The End

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O bosque proibido

Lembram-se desta princesa? Os cientistas descobriram outra carta que ela deixou! A carta mostra um bocado do que ela sentia por uma das pessoas, ela escreveu um diálogo talvez para nunca se esquecer de como sofreu naquela madrugada... É uma carta brusca e poderá causar uma ou outra lagrimita:

«O dia acordou calmo, sem uma núvem no céu e com os primeiros raios de sol a tocarem na lagoa do castelo. Eu nem tinha dormido, estava ansiosa demais pelo nosso encontro! Algo me dizia que naquela madrugada o ia encontrar sozinho e íamos ter um momento de privacidade... Estava quase a chegar ao nosso lugar secreto quando ele me pega no braço.
Vem comigo, o meu cavalo e o meu criado estão a descansar...
Eu fui, esta desculpa foi usada já várias vezes! Convidei-o a ir apanhar flores, era o próximo e derradeiro passo na nossa rotina secreta mas qual é o meu espanto quando recusa! Em vez disso pediu-me para o acompanhar até ao mega-buraco que fazia a raíz da árvore mágica onde o cavalo e o criado descansavam. Estranhei... O criado não devia saber que eu ali estava!
Ainda está fresco... Vem para perto da fogueira.
Vem comigo apanhar flores! O bosque está lindo a esta hora...
Não posso... O meu coração pregou-me uma partida e está a fugir ao meu controlo!
Mas isso até é bom...
Nem por isso! Se ele continuasse na mesma estava agora no bosque contigo... Gosto do que temos e não quero alterações!
Pois...
Deita-te aqui ao meu lado... Vamos conversar. Continuas tão bonita!.. Estás a tornar-te uma mulher linda!
Não digas estas coisas... Não me toques assim, não com eles aqui...
E irmos para a tua casa de campo? A criada ia armar confusão?
Não sei mas podia estranhar ou deixar escapar alguma coisa...
Pois, está complicado hoje...
Entretanto o criado acordou e eu tive de me armar em donzela perdida e inocente. Fiquei sem perceber grande coisa do que se passou nesta madrugada mas sei que havia vários passarinhos a escutar a conversa... Por isso peço que quando alguém descobrir esta minha carta publique um esclarecimento em tudo que é parede, jornal ou revista. Eu sei que o meu espírito vai vaguear po aí e assim pode ler.
Obrigada,
Princesa»


Coitadinha desta princesa... Todos lhe dificultavam a vida...
=(

sábado, 18 de julho de 2009

Pop goes the weasel

Acabara de se escapar outra vez para o seu mundo privado, a sua Boo'Ya Moon como lera algures num livro, o seu mundo escuro, frio e por vezes arrepiante. Porque não refugiar-se entre borboletas e fitas coloridas? Tinha percebido que por mais assustada que se sentisse qualquer outra pessoa sentiria pavor perante a ideia de entrar ali, o que a reconfortava e lhe dava motivação para continuar a ter esta floresta como primeira opção. A promessa de silêncio e calma era neste momento a força que a levava a dar um passo depois do outro e a necessidade de tempo e espaço impediam longos raciocínios.
Entretia-se esta noite como em todas as outras: de pernas cruzadas à beira do lago pegava nas pedras perto de si e atirava-as para o centro do remoinho. Por vezes molhava o dedo ao de leve na água escura e pobremente iluminada pelo luar. Este lago assemelhava-se a um buraco negro e parecia sugar a luz e o barulho.
Adorava este sítio mas desde há umas noites que, apesar de se sentir protegida das preocupações do dia, se sentia vulnerável a uma força inexplicável que surgia com a lua. Hoje tinha a certeza de que o seu mundo privado albergava um intruso. Ouvia risos histéricos vindos de longe.
Hoje ouvia-os mais perto. Hoje ele corria em círculos à volta do lago, escondido por entre a erva alta e atrás das árvores. Por vezes aproximava-se mais provocando-lhe arrepios gelados. Sentia o pânico a aparecer dentro de si. Aquele já não era o seu mundo. Ele estava ali apenas para o provar.
Corria cada vez mais rápido à sua volta e o seu riso era cada vez mais feliz e cada vez mais alto. Cantava, agora.
"All around the cobbler's bench the monkey chased the weasel..."
A água do lago girava rapidamente acompanhando o seu ritmo cardíaco. Atrás de si surgiu uma sombra. Sentiu uma respiração ofegante no seu pescoço e a voz tornou-se um sussurro aos seus ouvidos.
"... the monkey thought 'twas all in fun..."
Fechou os olhos e susteve a respiração. A voz já não era mais que um murmúrio.
"... pop goes the weasel!"
Ouviu a gargalhada, sentiu as mãos a atirarem-na para a água e soube nesse momento que tinha sido expulsa do seu próprio mundo. Não resistiu à força da água. Não valia a pena.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Chuvas

Trovejava o céu acima das suas cabeças, despejavam-se as nuvens sobre as suas frontes, caía o desespero sobre os seus corpos, o cansaço abatia-se sobre as suas mentes. Haviam sido dias, semanas de luta constante, uma luta descomunal de constante reconstrução e destruição. E nenhum dos dois cederia. Acabaria primeiro o tempo antes de um deles cair, findaria o espaço antes de um deles desistir. Entre os dois apenas o vazio, a distância de uma luta travada. Pedaços de dor encontravam lugares nos seus corações, lugares de dor albergavam pedaços de luz.

Mas a luta havia findado e a única coisa que agora lutava eram os seus olhos, as suas vontades.

Viraram costas um para o outro e seguiram o seu caminho. E agora não era apenas o céu que chovia. Não era só o céu que bradava.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Laranja-poente

Era uma vez um montinho de lama, lodo e algas podres, disforme e mal-cheiroso. Era um agregado nojento de matéria em decomposição, um lar agradável de bactérias e fungos patogénicos e um iman eficaz de mosquitos infectados e insectos asquerosos.
Movia-se pelas ruas, espalhando o caos, o fedor e a sujidade. Entupia vias, bloqueava soluções e impedia pensamentos.
Ninguém poderia prever que este lixo era um ser vivo capaz de elaborar raciocínios por isso ninguém percebia porque é que ele, sem hesitação, depois de ter atravessado a cidade de uma ponta a outra, mergulhava no rio.
Não demoraram a perceber que a água que recebia aquele monstro nunca mais seria a mesma. O que eles nunca iriam perceber era como é que uma raposa tinha saído tão limpa de dentro daquela água.
Por razões do destino a única pessoa a ver essa raposa foi a criança do vestido vermelho, cabelo preto e ar triste a quem ela pertencia. E ela percebia perfeitamente tudo o que se tinha passado nessa tarde. Abraçou a raposa, contou-lhe um segredo e voltaram ao início.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Névoa

Preso à cadeira, o corpo já não lutava. Tinha perdido toda a vontade, toda a esperança, o seu mundo tinha ficado de pernas para o ar. O seu cativeiro durava à pelo menos doze horas, durante as quais Ele se alimentava, Ele se aliviava. A pobre garota já não sabia o que fazer, o que dizer. Era este monstro o seu namorado?
Ela lembrava-se do início da relação... da corte tímida dele e dos seus gestos envergonhados. No final tinha sido Ela a convidá-lo a sair. Tempos áureos... Tinham sido felizes, tinham sido um casal, mais que isso talvez, tinham sido Um.
Mas agora Ele revelava o seu lado sombrio. Um lado mais escondido que a poucos se revelava, e pelos vistos os que o viam não ficavam para contar a história dele...
E as forças delas esgotavam-se. O sangue escorria-lhe pela cara proveniente dos dois longos cortes que Ele lhe tinha infligido na testa e por baixo do olho. O cansaço apossava-se-lhe da mente como uma névoa morna... A dor deixava de existir. Agora só cansaço. Cansaço e paz. A morte estava próxima. O seu derradeiro suspiro.

e o Silêncio.

sábado, 20 de junho de 2009

Done.

A luz laranja-poente que invadia aquele espaço parecia deslocada da situação. Uma espécie de silêncio reinava ali dentro e tudo parecia ter uma coloração acinzentada. Tudo execepto aquela luz a tornar-se pálida que já mal iluminava a caixa que tinha em mãos.
Se alguma vez existiu um objecto que desafiasse as leis do universo teria de ser aquela caixa. Mais do que partículas atmosféricas ou moléculas de supostos materiais tinha sido ali guardado tempo. Era possível encontrar anos de uma vida naquela pequena área. Guardado como uma arca de tesouro o pequeno bau encerrava toda uma etapa de crescimento da vida de alguém e tal como uma arca de tesouro parecia encerrar uma maldição, um qualquer feitiço. Ela não acreditava em nada disto, claro, mas a verdade é que se sentia presa àquela caixa, como um âncora. Sentia que era altura de se ver livre do seu conteúdo. Seria a primeira pessoa a destruir tempo. Mas não o podia fazer ali, havia demasiada agitação, não se conseguia concentrar. Pegou na caixa e saiu porta fora, passou na cozinha e deitou as mãos a algo. Entrou no carro e conduziu para longe, para o mar. Na praia ajoelhou-se e deixou cair o fósforo dentro da caixa. Via o tempo a ser queimado, via as folhas de recordações a arder. Ardeu tudo. Talvez algo novo venha a renascer das cinzas.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Parte III - Ana na Faculdade das Maravilhas


Era uma vez uma menina chamada Ana. Antes chamava-se Alice mas aos 18 anos decidiu mudar de nome.
Numa bela tarde de Primavera caiu num buraco. Encontrou o Coelho Margarido que andava a apanhar cogumelos mágicos.
- Queres um?
- Não, obrigada. Só como cogumelos depois do Chichorro os ter identificado. Além disso estou a falar com um coelho, já chega de drogas por hoje.
- Então toma um bolinho de chocolate.
Quando acordou viu um lobo - o mesmo das outras histórias - com um relógio gigante.
- Que horas são? - perguntou ela.
- São horas de te comer.
- Está bem!

The End

Rita e Xumé

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Mas ainda hoje tem um vazio que não sabe explicar...

Estou?
Olá.
Que se passa? Que horas são?
Desculpa ter-te acordado... Vou-me embora, vou sair daqui, já não aguento mais!
Hãn? Mas..
Não dá mais, tudo aqui me lembra de ti! Todos os bancos de jardim, todas as esplanadas, todos os casais... Tudo me lembra do que pus em causa por mais uma (e outra, e outra...) noite na tua companhia, por querer sentir o teu cheiro outra vez, por precisar do calor dos teus lábios e da determinação do teu abraço!
Desculpa...
Não é "desculpa", devias ter dito que ia chegar a este ponto! Tu sabes como sou, tu sabias como ia acabar mas mesmo assim preferiste não me impedir, quiseste vir ter comigo vezes sem conta!
Eu não conseguia pensar no "acabar"!
Conseguias sim! Oh Carlos, por uma vez na vida enfrenta as coisas! Não fujas com desculpas e mentirinhas, sê sincero e diz o que sentes...
Eu quero fugir contigo mas não tenho coragem de deixar tudo para trás. Vou ficar fechado em casa com antidepressivos durante 2 meses e nunca me vou perdoar por teres fugido! Eu sou culpado por deitar fora a pequena dor que sentia para a substituir por esta, por ter acreditado que valia a pena arriscar!
Adeus.
Não vás! Fica por favor... O que tenho de fazer?
Volta atrás no tempo e nunca me faças aquele telefonema. Nunca me ligues a dizer que tens saudades minhas e que só precisas de me ver mais uma vez...
Por ti?
Por nós...


Ele acabou o curso e construiu uma Máquina do Tempo. Ele fez com que este diálogo nunca tivesse acontecido porque a amava assim tanto. 


domingo, 26 de abril de 2009

O labirinto de Ariadne.

Ariadne olhava-se ao espelho e rodava a saia do vestido de preguinhas rendadas. Era uma menina crescida, agora, e como tal tinha obrigações a que não podia escapar, o que era possível perceber pela expressão apática da sua cara. Era uma espécie de sofrimento ter de acordar cedo para fazer algo para que não se sentia motivada. Só o olhar suplicante da mãe a levava a sair de casa. Olhou pela janela do quarto, para o extenso jardim verdejante lá fora. Suspirou, ajeitou o laço no cabelo e saiu de casa. Ter dez anos não era nada fácil...
A viagem de carro era extremamente desconfortável e entreteve-se a pensar como seria o mundo quando tivesse vinte anos. Dez anos era muito tempo... O futuro tinha de ser diferente! Se calhar já nem iriam existir carros...! Mas se existissem carros em 1941 de certeza que seriam infinitamente mais confortáveis. Nem sequer dava para apreciar a paisagem com tanto solavanco e estava a ficar terrivelmente enjoada... A única coisa que conseguia perceber das imagens tremidas que recebia através da janela era que estava uma linda manhã de Primavera o que só veio acentuar o desgosto por ter que ir à missa.
Não percebia nada de latim, não achava piada nenhuma a ter que repetir uma ladainha infinita numa língua que não entendia e todo aquele ambiente era depressivo. Ninguém sorria, tinha de estar sempre calada e não podia brincar com os outros meninos. Queria ir brincar para a rua, apanhar ar, gritar, cantar. Ali as músicas e o silêncio eram igualmente pesados.
Quando era mais pequenina pensava que as pessoas estavam tristes pelo senhor pregado na cruz. Não percebia porque é que as pessoas olhavam para o chão em vez de olhar para ele. Seria para fingir que ele não estava lá, a sofrer? Ou para não terem de o ajudar? Se calhar era difícil tirar aqueles pregos. Se calhar também não se queriam sujar no sangue. Às vezes tinha vontade de ir lá acima falar com o senhor da cruz, perguntar se estava bem e tentar ajudá-lo mas tinha medo porque havia o senhor mau que falava uma língua que não entendia (o padre, veio a avó a ensinar-lhe mais tarde) e além disso a mãe batia-lhe se ela sujasse o vestido de domingo.
Depois de ter percebido que era uma imagem esculpida em pedra e não uma pessoa a sério começou a indagar a causa para tamanho castigo. Se calhar tinha percebido mal, se calhar ele é que era o homem mau. Se calhar era um ladrão ou um assassino e o padre estava à frente dele a falar latim para nos alertar para os perigos de existirem pessoas más que nos podem fazer muito mal. Nunca tinha ouvido falar de um castigo assim.
Estes pensamentos de criança tinham sido a sua crença há dois anos atrás. Mas a avó explicara-lhe o que se passava: nós é que éramos as pessoas mal comportadas e senhor da cruz chamava-se Jesus e tinha vivido há muitos anos. Até hoje nunca existiu ninguém como ele. Era o bem mas não era um anjo. Era uma pessoa como nós mas conseguia fazer coisas que nós não conseguíamos. A avó chamou-lhes milagres e contou-lhe alguns. Ela ainda não percebia muito bem como é que os milagres funcionavam mas tinha quase a certeza que era uma espécie de magia misturada com curas dos médicos porque ele conseguia por os cegos a ver.
A avó também lhe explicou que Jesus estava na cruz porque era tão bom que se sacrificou por nós, para nos salvar, porque nós é que devíamos ser castigados. Ela não percebia isto muito bem. Na escola, quem fazia alguma coisa mal levava reguadas nas mãos. Não havia um menino que fosse castigado por todos eles. Nem fazia muito sentido...
Apesar de tudo o que a avó já lhe tinha explicado ainda havia muitas coisas que não percebia. Por exemplo, as pessoas falavam muito de Deus. Deus não era uma pessoa. Era Deus. A avó disse-lhe que era como o ar: estava por todo o lado mas não o conseguíamos ver. E Deus era também o próprio ar. Ela não percebeu, então a avó explicou-lhe que Deus era pai de Jesus mas que não era um pai como os outros, o que a deixou muito confusa. A avó disse-lhe que Deus é quem decide se vamos para o inferno ou para o céu quando morremos. A ideia de alguém existir e poder decidir isso assustou-a muito. No outro dia tinha comido um rebuçado às escondidas da mãe! E às vezes sujava as meias brancas e arranhava os joelhos quando brincava no jardim! Se calhar ia para o inferno...! A avó acalmou-a e explicou-lhe que só pessoas que fazem mesmo coisas muito más são enviadas para o inferno. Além disso Deus não toma decisões de ânimo leve, porque Deus é Amor. Ela não sabia o que isso queria dizer.
Pensava em todas as conversas que tinha tido com a avó. Tinha saudades dela. Esperava que ela estivesse no céu. Ia ter muito calor no inferno, além disso não devia ter piada nenhuma ver o que se passa aqui através do chão e da terra. Mas a avó era boa pessoa, de certeza que estava no céu. A mãe tinha-lhe dito que sim, que estava. Ela ficava feliz por isso mas cada vez tinha mais dúvidas e perguntas e tinha a certeza que a mãe não lhe saberia responder. Precisava mesmo da avó...
Com dez anos já era crescida o suficiente para perceber que não se devia portar mal porque Deus castigava e tinha de estar em silêncio na missa por respeito a Jesus. Mas ainda não percebia muitas coisas e a que hoje a incomodava mais era esta: estavam ali muitas pessoas tristes porque alguns familiares seus já tinham morrido e outras pediam ajuda porque tinham vidas muito complicadas. Aquele era o momento do dia em que supostamente não deviam pensar nessas coisas e deviam simplesmente ficar felizes porque estavam perto de Jesus, mas a verdade é que adoravam uma imagem de tortura que as recordava de como eram pecadoras e deviam ser castigadas. Ou seja, por cima de todo o sofrimento que já sentiam vinham também ali arcar com uma culpa que vinha de um acto cometido há mais de mil anos atrás quando elas ainda nem sequer tinham nascido! A avó tinha-lhe explicado que a fé significava 'acreditar' e que as pessoas tinham fé em Deus, acreditavam em Deus, porque ele era poderoso e podia ajudá-las e dar-lhes felicidade. Ela já tinha dez anos e ao fim de tantas vindas à igreja não via ninguém feliz. O padre continuava a ralhar, ao fim de dez anos, e as pessoas continuavam com o seu ar cinzento e pesado, às vezes com o olhar perdido no espaço, enquanto pensavam nos muitos problemas que tinham para resolver. Isto não fazia sentido para ela. Porque não acreditar no sol? Porque não ter fé nele? Ele nunca nos falhava. Depois da noite vem sempre o dia, ele está sempre lá ainda que não o consigamos ver, tal como Deus. Porque é que estas pessoas tinham tanta fé num Deus que deixou que matassem o seu próprio filho? Isso não era crime? E foi justo castigar um pelas culpas de muitos? Valeu a pena?
Tanto pensamento e dúvida fizeram o tempo passar mais depressa e quando deu por si a missa já tinha acabado, a viagem de regresso a casa foi tão torturante como a primeira e assim que se viu livre correu para o jardim. Estava mesmo um dia lindo! O céu estava azul, o sol brilhava bem alto!
- Mãe, tenho fome...!
- O almoço ainda não está pronto. Vou começar agora.
- Demora muito?
- Um bocadinho.
- Então vou brincar!
- Não sujes o vestido!
- Está bem!
Ariadne correu atrás de uma borboleta quando pelo canto do olho reparou em algo a mexer perto dos cedros. Pé ante pé andou nessa direcção com algum medo a formar-se no seu íntimo. Se calhar é só um gatinho perdido, pensou, e acelerou o passo perante o pensamento de uma bolinha de pelo fofinha. Entrou no labirinto. O pai não ia achar piada mas ela ia atravessar só dois corredores, sabia o caminho de volta. Ouviu barulho do outro lado da parede. "Bem, só mais uma, ainda estou perto da saída". Sentiu que o que perseguia se afastava de si mas estava ainda muito perto para poder adivinhar a sua posição. "Vou só até àquela esquina e volto para trás". Deparou-se com duas passagens diferentes e escutou barulho à sua esquerda. "Ainda estou perto da saída...!". Começou a correr ao sentir-se mais próxima daquele ser. "É um gatinho, só pode ser um gatinho...!", pensou enquanto a deslocação do ar lhe tornava a face fria. O vestido prendeu-se num galho e rasgou-se. Ariadne não percebeu e continuou a correr. Repentinamente parou. Ao fundo desse corredor via a sombra escura a mexer-se lentamente, cambaleante. "Aha, eu sabia que te apanhava!". Com as faces vermelhas e o vestido sujo deu a última corrida em direcção ao animal. Era um gato. "Eu sabia!". Mas neste momento era um gato morto. Ariadne chegara a tempo de o ver tombar inerte. Ao seu lado sibilava uma cobra mas Ariadne só a viu um segundo antes de ela a morder na perna.
Gritou de dor mas ninguém a ouviu. Caiu na relva, ao lado do gato, e olhou receosa para a cobra que se esgueirava por baixo da parede de arbusto forte. Pôs as mãos à perna, perto do sítio onde a cobra a tinha mordido. Notavam-se dois pequenos buraquinhos e um fino fio de sangue escorria pela perna. Sentia uma dor imensa e o próprio veneno a circular pelo corpo como fogo a queimar as veias e artérias. Deitou a cabeça no chão e olhou para cima. Via uma estrela no céu. Era já quase de noite. Passara todo o dia a correr pelo labirinto. Estava perdida, não se lembrava do caminho de volta e não conseguia andar. Estava assustada de morte. Olhou para o gato morto ao seu lado e vomitou. "Tenho medo", e começou a chorar.
Cada vez ficava mais escuro e cada vez estava mais aterrorizada. "E se ela volta? E se me morde outra vez?". Estes pensamentos e a dor permanente não lhe davam descanso e mantinham-na em total estado de alerta. Num momento de cansaço lembrou-se da avó e da forma como ela estava calma quando rezava. Decidiu fechar os olhos e rezar. Nunca o tinha feito e não sabia como o fazer. A avó dizia que Deus ajudava quem precisava de ajuda e que Jesus tinha feito isso durante toda a sua vida. Ela precisava muito de ajuda. "Deus e Jesus, estou com muito medo, dói -me a perna e não consigo andar. Quero a minha mamã. Desculpem-me por ter feito mal, sei que não devia ter entrado no labirinto. Desculpem-me por ter sujado e rasgado o meu vestido novo. Prometo que nunca mais faço nada de mal mas por favor ajudem-me! Por favor, ajudem-me! Por favor! Por favor...". Repetiu o pedido por tempo indeterminado e durante os períodos de febre altíssimos que teve nessa noite não cessou de pedir ajuda. De repente despertou e ao abrir os olhos viu que ainda era de noite. Chorou e desistiu de pedir ajuda. Parecia-lhe claro que Deus não estava para a ajudar. Que estupidez, pedir ajuda ao ar. Ela tinha era que pedir ajuda ao sol! Fechou os olhos novamente e pediu ajuda ao sol. "Por favor que seja dia, por favor, por favor... Sol, tu nunca me falhas. Que seja um dia lindo, que os meus pais me consigam encontrar... Por favor!". Adormeceu novamente mas desta feita possuída de uma força de vontade enorme e de um sentido de sobrevivência intenso. Sentiu luminosidade e abriu os olhos. Era de dia.
Ariadne sentou-se, encheu-se de força, e gritou. Gritou com vontade e determinação. Não tardou a ouvir vozes e barulho de machados. Dentro de pouco tempo a parede verde ao seu lado sofreu o derradeiro corte e o seu pai entrou, seguido de cinco ou seis homens que o ajudavam nas buscas. Mais tarde Ariadne veio a saber que pensavam que se tinha perdido no bosque ali perto, nunca pensaram em procurá-la no labirinto. Enquanto lhe contavam esta versão Ariadne só conseguia pensar em como o sol lhe salvara a vida. Não culpava Deus pela ausência de ajuda. Como é possível culpar algo que não existe?

sábado, 25 de abril de 2009

O bicho papão

Escondido debaixo das mantas, o menino aguardava. Envolto em medo o petiz esperava. O peso dos cobertores era um conforto. Lá fora, fora da cama, isto é, o quarto repousava no escuro. Lá fora, fora das quatro paredes, o vento rugia, os ramos das árvores batiam nos vidros (como num cliché de um desesperado filme de terror sem audiência). O tempo não estava para brincadeiras e a tempestade parecia avizinhar-se.
O garoto tremia, receoso, do papão que o viesse buscar. O papão, bicho mitológico de estórias desaparecidas que se parecia alimentar de carne de crianças inocentes, e garotos mal-comportados. O medo, mais que irracional era desnecessário pois se era de crianças que o papão se alimentava, este rapaz não tinha nada a temer. Criança era coisa que já não era ou pelo menos pensava não ser Estava naquela fase da adolescência, a incerteza e a insegurança toldavam-lhe o rumo a tomar, e o menino parecia perder-se cada vez mais nos seus medos. Mas esquecendo a idade do alvo, o gaiato tremia nervosamente, sentindo um tal pânico com nunca tinha sentido, destrutor de toda a possível razão. Resolveu aguardar e a ansiedade lá baixou. Necessitava de ajuda, companhia. Habituado a que lhe aquiescessem aos pedidos, resolveu sair da cama e dirigir-se ao salão na senda de um criado, a governanta ou mesmo o velho mordomo lhe fizesse companhia.
Pé ante pé, na semi-obscuridade, o garoto lá ia indo sem muito medo. Dez passos volvidos e o temor parecia descer. Ao fim do corredor, o medo parecia ter-se evaporado. Eis senão quando uma sombra na escuridão surge de um refugiado canto. O coraçãozinho a palpitar, a pele a suar, os membros do corpo a enrijecer e o miúdo já não saía do lugar. Estranhos rugidos gargalhantes pareciam assombrar a casa. Rangeres estranhos, suspiros abafados de quem não se quer excitar com a presa. Os olhos da criança brilhavam das lágrimas que lhe caíam. A sombra aproximava-se e não havia fuga. Chegava-se a ele como um estranho pano de seda: macio, leve e fresco... O terror apossava-se dos pensamentos do pequenino. O fim estava próximo.

Acordou no meio de sussurros e suspiros seus, encharcado no meio de suor. Estava seguro, estava a salvo, a manhã chegara. Atreveu-se a pôr os pés fora da cama. Nunca chegou a tocar no chão. Debaixo da cama esperava o comedor de crianças.

Porque meus petizes, não é no desconhecido que reside o desafio, não é do papão que devemos ter medo, não é do escuro nem dos ruído da noite... O medo não passa disso mesmo, medo.
O problema é quando nos deixamos tomar por ele. A criança não morreu obviamente. Apenas tropeçou num desterrado brinquedo e caiu de boca no chão. Ninguém o manda ser desarrumado.

Caranguejola

Não iriam acreditar no número de frases que comecei para vos escrever hoje, mas achei por bem ir directo ao assunto, sem rodeios pretensiosos e chatos.
A minha colaboração n'O Colectivo de Contadores chegou ao fim. Não é minha obrigação dar qualquer tipo de justificação, mas sinto que o simples abandono deste blog poderia levar a conclusões precipitadas. Os motivos são os de uma deficiente organização e desleixo em alguns trabalhos. Tendo eu dois blogs em nome próprio e duas colaborações, a gestão do tempo tem sido feita mal e porcamente, o que leva à falta de qualidade em alguns textos, o que não me agrada a mim nem a quem lê, por poucos que sejam.
Assim, e não menosprezando o trabalho daqueles que aqui escrevem, decidi que o "sacrificado" (ou talvez não) seria o Colectivo, já que é um trabalho muito idêntico a outro feito num blog próprio.
Foi um gosto enorme escrever neste espaço, mas decisões têm que ser tomadas, e espero que aceitem esta com a mesma lucidez e pesar com que a tomei.
Podem sempre ir a http://achuvamolhada.blogspot.com, ver como é que estou, mas aqui não voltarei a escrever. "Nada mais a fazer" dizia Sá-Carneiro, "O menino dorme. Tudo o mais acabou."

quinta-feira, 23 de abril de 2009

amo-te porra

Foi numa manhã negra e sonolenta que vi pela primeira vez aquela frase, escrita porcamente a spray azul num bloco de betão ríspido e frio. "amo-te porra", escrita assim, sem maísculas nem pontuação, foi ali pntada durante a noite, por alguma alma apaixonada que quis mostrar os seus sentimentos mais profundos não só à alma amada como também ao pequeno universo de pessoas que passam pela rotunda onde o bloco de betão está instalado.
Alvo de comentários trocistas durante os primeiros dias de exposição, a frase rapidamente se tornou banal, até fazer parte natural da paisagem fria e grosseira das obras de alargamento de uma estrada, em que ninguém parecia mais reparar. Quando finalmente a estrada passou a ter duas grandiosas faixas de cada lado, o bloco de betão desapareceu sorrateiramente, não deixando saudade aos automobilistas, sedentos de velocidade e ultrapassagens.
Não são poucas as declarações públicas escritas no alcatrão da estrada, numa placa de direcção, numa parede, num sinal de trânsito. No entanto, este "amo-te porra" toma um significado especial na sua categoria. Não é pela maneira como foi escrito, felizmente este obedeceu aos cânones oficiais: escrito com spray de pouca qualidade, letra minúscula, mas à máquina, com o mesmo requinte que um "o governo é merda!" ou um "SLB filhos da puta", esta frase apenas difere no seu conteúdo. O normal é haver um nome associado ao verbo amar ou ao seu equivalente na língua inglesa, não uma grotesca expressão de aborrecimento e indignação como é a palavra "porra". Mas é neste ponto que o autor da frase inova: ao não nomear ninguém, não corre o risco de ser humilhado no caso daquele amor terminar, como acontece tão frequentemente na vida. "amo-te porra" é intemporal e impessoal: o ser humano irá sempre amar, quer seja a Maria, a Inês, a Joana, o Manel, o Carlos ou o Francisco. O indivíduo que ali escreveu aquelas singelas palavras não terá provavelmente a noção da sua importância: serviram de riso àqueles que, desde sempre amados, troçam da patetice deste tipo de romantismos; serviram de preocupação àqueles que tomam qualquer inscrição num espaço público como um acto cataclísmico de vandalismo; serviram de consolo aos altruístas que se sentiram felizes por saber que há lá fora gente feliz, que ama; serviram de desgosto aos infelizes, sendo aquelas letras uma provocação à sua solene tristeza.
E pouco mais há a dizer sobre isto, o mais provável é que continuem a surgir risos aquando da memória das palavras escritas naquele local. Mas eu vos digo, aqui sentado numa cadeira de escritório, virado para este crepúsculo nojento, vestido com um robe velho que me pica a pele, que furava os olhos e rasgava a boca por umas palavras semelhantes.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O homem e o seu cavalo...

O cavalo galopava freneticamente pela floresta. Segundo a segundo a sua velocidade aumentava. Curtos clarões de negro espalhavam-se pela floresta. A única coisa que mantinha o homem ainda em cima do cavalo era o dever porque a força já à muito havia sido consumida. A armadura pesava-lhe, o suor cegava-o, o calor matava-o. Apenas o dever o mantinha vivo. O dever, o maldito dever. A vontade régia que o cingia a um contrato que não queria honrar. Mas o passado não lhe interessava agora.
O cavalo acelerava por entre os carvalhos sem que se lhe fosse dada nenhuma ordem. A mente do homem confundia-se com a mente do cavalo, uma só mente meio homem, meio animal que governava um ser de seis pernas e dois braços que se movia inconscientemente pelas sombras. No alto das árvores, as sombras também se moviam. Mais rápidos do que o olho humano pode processar, os vultos saltavam de árvore em árvore, de ramo em ramo de folha em folha. O peso não os atrapalhava, a matéria não os entravava.
O incauto cavaleiro seguia o seu caminho o mais rápido que podia. Inconsciente do perigo que corria. O cavalo galopava ofegante, consumindo a réstia de energia que tinha. A noite alastrava-se pelo céu como tinta num charco.



Três homens caminhavam lentamente pelo chão da floresta. Seguiam marcas de sangue à muito deixadas naqueles trilhos. Rapidamente chegaram ao seu destino. Dos ramos pendiam restos de homem, restos de animal, uma visão grotesca para o homem comum. O sangue fora-lhes extraído dos corpos como precioso néctar. Nos chão, a escrita dos vampiros avisava:
"Idiota é o homem maldito que julga fugir à maldição. Pois da maldição nem a morte os liberta."

Os três homens entreolharam-se. O primeiro tinha caído. Apenas três faltavam. Aproximaram-se do homem e rasgaram-lhe a armadura com as mãos. No seu pescoço seis pequenos buracos ainda pulsavam. Um pequeno pendente balouçava ao sabor do vento. Eis a primeira chave.
Os três homens esperaram a noite cair. Assim que o último pedaço de sol desapareceu por detrás do horizonte e a noite se apossou do mundo, os homens desfizeram-se na sombra e dirigiram-se ao próximo alvo.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Dream on, girl.

Era de noite e custava-lhe a respirar. Inalava mas o ar não entrava. A atmosfera estava pesada, como que adivinhando uma tempestade mas o céu estava limpo e estrelado. Talvez fosse o calor a provocar essa sensação. Não tinha a certeza mas sentia que as coisas não estavam de todo normais. Avaliava com atenção o céu quando a interromperam.
- Acorda! É Queima!
(Queima...? Mas estamos em Março...!)
- Queima?
- Sim! Primeira semana de Maio, alô! Já não era sem tempo...!
(Maio? Mas ainda ontem era dia 17 de Março...!)
Estava perdida e não conseguia perceber nada, mas era Queima por isso fez o seu maior esforço para esquecer a inquietação que a controlava e obrigou-se a entrar no espírito. Tudo isto tinha o seu Q de louco e não era o comum Q de Queima nem a loucura alcoólica do costume. Parecia um filme realizado por um psicopata.
Estava na Praça, encostada à montra da farmácia, a tentar encontrar algum sentido. Entendia que era o dia do cortejo mas tudo o resto não batia certo. Era de noite e ninguém estava trajado. Além disso não deviam estar nem cem pessoas na Praça. Ainda assim deixou-se estar. Tudo isto devia ter uma explicação mais ou menos lógica. Ao fundo, na rua em frente, ouviam-se vozes e cantares característicos da ocasião.
- Vem aí o primeiro carro! - exclamou alguém ao seu lado.
(Qualquer coisa aqui está muito errada... Este silêncio... é estranho!)
O que vinha a descer a rua não era um carro alegórico. Nem sequer era um carro. Era uma plataforma. Uma simples plataforma construída com bocados de madeira velha, carregada por dez ou vinte pessoas enquanto um outro alguém sentado nessa estrutura bizarra fazia brindes com a atmosfera.
Esta imagem era inexplicável e deixou-a estática. Não estava à espera de algo assim. À sua volta havia explosões de espanto e raiva.
(Será que finalmente isto começa a fazer sentido?)
Tudo o que vivia era absolutamente assustador mas para os seus vizinhos na assistência o problema era outro.
- Mas afinal que curso é este?
- Não é curso nenhum...! Não havia pessoas suficientes... Estes são os estudantes que existem actualmente...
- Então e as flores no carro?
- Não havia dinheiro. Houve desfalques por parte da reitoria. A universidade está falida.
- O quê?
O públixo insurigia-se violentamente perante esta informação aparentemente desconhecida até então. Ela encolheu-se mais contra a montra da farmácia e desejou sair dali. Gerava-se à sua volta um ambiente tenso em que olhares e gestos ameaçadores se multiplicavam e espalhavam rapidamente. Isto não ia acabar nada bem...
(Tenho de sair daqui!)
Deu um salto na cama. As persianas abanavam ruidosamente com o vento forte que soprava lá fora. Viu as horas. 5.58 am. Ainda podia dormir mais um grande bocado. Que sonho estúpido...!
(Tu-ru-ru-ru-ru-ru-ruuu...)

domingo, 15 de março de 2009

Quando a cabeça não tem juízo...

Era uma bela colina. Um daqueles pormenores numa paisagem que ninguém pode ignorar. "Verdejante", diriam os autores de escrituras complexas e demasiado intelectuais que estripariam o sentido de uma boa paisagem (algo para se ver, não para se ler). Mas sigamos ao que nos traz aqui: conhecem aquela estúpida expressão de que "vão rolar cabeças"? Uma expressão um pouco patética diria eu... Ainda assim, e ironicamente estava mesmo uma cabeça a rolar colina abaixo. Era uma cabeça de alguém, isso era certo e seguia entretida numa corrida colina abaixo. Quem olhasse para a cabeça não diria que estava divertida, talvez pelo esgar de dor do anterior dono eternamente capturado num amontoado de músculos e ossos ou talvez porque (diriam os mesmos autores) uma cabeça por si só não tem com que se divertir. Finalmente livre dos tendões que a prendiam ao corpo idiótico de um humano apático e algo anafado, estava feliz (na medida em que uma cabeça é capaz de estar feliz quando separada do corpo, o que vendo bem, ainda é alguma coisa.)

As crianças no parque infantil olhavam divertidas para aquilo que parecia uma bola disforme a saltitar campo fora, colina abaixo. Os adultos que olhavam pelas crianças discutiam a irresponsabilidade de se deixar uma bola rolar e saltitar colina abaixo. Imaginemos por momentos o que pensariam se soubessem que era uma cabeça...

À medida que ia ganhando velocidade, a cabeça pensava na antiga vida que tinha tido. Não tinha sido nada de especial, uma vida normal (pelo menos até ter sido degolada) mas agora era uma cabeça livre, uma coisa rara nos dias de hoje, essa coisa de se ser livre... A colina parecia estar a terminar. Um ressalto depois estava agora no meio de uma auto-estrada, a saltitar entre bermas. Segundos depois lá parou. Mesmo no meio de uma faixa.

O camionista ia despreocupado. A carga estava bem posta e estava a conseguir cumprir o horário.

A cabeça viu o monstro metálico aproximar-se
O camionista viu o objecto estranho no meio da estrada.
A cabeça pensou "FOOOOGE!" mas as pernas não se mexeram.
O camionista analisou melhor o que lhe parecia seu um obeso animal
"Merda, as pernas ficaram com o corpo."
"Espera lá! Aquilo é uma cabeça!"

SPLHERGHSH

Se calhar ser uma cabeça sem corpo não é assim tão bom...