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sábado, 25 de abril de 2009

Caranguejola

Não iriam acreditar no número de frases que comecei para vos escrever hoje, mas achei por bem ir directo ao assunto, sem rodeios pretensiosos e chatos.
A minha colaboração n'O Colectivo de Contadores chegou ao fim. Não é minha obrigação dar qualquer tipo de justificação, mas sinto que o simples abandono deste blog poderia levar a conclusões precipitadas. Os motivos são os de uma deficiente organização e desleixo em alguns trabalhos. Tendo eu dois blogs em nome próprio e duas colaborações, a gestão do tempo tem sido feita mal e porcamente, o que leva à falta de qualidade em alguns textos, o que não me agrada a mim nem a quem lê, por poucos que sejam.
Assim, e não menosprezando o trabalho daqueles que aqui escrevem, decidi que o "sacrificado" (ou talvez não) seria o Colectivo, já que é um trabalho muito idêntico a outro feito num blog próprio.
Foi um gosto enorme escrever neste espaço, mas decisões têm que ser tomadas, e espero que aceitem esta com a mesma lucidez e pesar com que a tomei.
Podem sempre ir a http://achuvamolhada.blogspot.com, ver como é que estou, mas aqui não voltarei a escrever. "Nada mais a fazer" dizia Sá-Carneiro, "O menino dorme. Tudo o mais acabou."

quinta-feira, 23 de abril de 2009

amo-te porra

Foi numa manhã negra e sonolenta que vi pela primeira vez aquela frase, escrita porcamente a spray azul num bloco de betão ríspido e frio. "amo-te porra", escrita assim, sem maísculas nem pontuação, foi ali pntada durante a noite, por alguma alma apaixonada que quis mostrar os seus sentimentos mais profundos não só à alma amada como também ao pequeno universo de pessoas que passam pela rotunda onde o bloco de betão está instalado.
Alvo de comentários trocistas durante os primeiros dias de exposição, a frase rapidamente se tornou banal, até fazer parte natural da paisagem fria e grosseira das obras de alargamento de uma estrada, em que ninguém parecia mais reparar. Quando finalmente a estrada passou a ter duas grandiosas faixas de cada lado, o bloco de betão desapareceu sorrateiramente, não deixando saudade aos automobilistas, sedentos de velocidade e ultrapassagens.
Não são poucas as declarações públicas escritas no alcatrão da estrada, numa placa de direcção, numa parede, num sinal de trânsito. No entanto, este "amo-te porra" toma um significado especial na sua categoria. Não é pela maneira como foi escrito, felizmente este obedeceu aos cânones oficiais: escrito com spray de pouca qualidade, letra minúscula, mas à máquina, com o mesmo requinte que um "o governo é merda!" ou um "SLB filhos da puta", esta frase apenas difere no seu conteúdo. O normal é haver um nome associado ao verbo amar ou ao seu equivalente na língua inglesa, não uma grotesca expressão de aborrecimento e indignação como é a palavra "porra". Mas é neste ponto que o autor da frase inova: ao não nomear ninguém, não corre o risco de ser humilhado no caso daquele amor terminar, como acontece tão frequentemente na vida. "amo-te porra" é intemporal e impessoal: o ser humano irá sempre amar, quer seja a Maria, a Inês, a Joana, o Manel, o Carlos ou o Francisco. O indivíduo que ali escreveu aquelas singelas palavras não terá provavelmente a noção da sua importância: serviram de riso àqueles que, desde sempre amados, troçam da patetice deste tipo de romantismos; serviram de preocupação àqueles que tomam qualquer inscrição num espaço público como um acto cataclísmico de vandalismo; serviram de consolo aos altruístas que se sentiram felizes por saber que há lá fora gente feliz, que ama; serviram de desgosto aos infelizes, sendo aquelas letras uma provocação à sua solene tristeza.
E pouco mais há a dizer sobre isto, o mais provável é que continuem a surgir risos aquando da memória das palavras escritas naquele local. Mas eu vos digo, aqui sentado numa cadeira de escritório, virado para este crepúsculo nojento, vestido com um robe velho que me pica a pele, que furava os olhos e rasgava a boca por umas palavras semelhantes.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A vida é uma incógnita

A paragem do autocarro habita um lugar particularmente inóspito. Localizada bem no centro de uma gigantesca avenida, quase nunca recebe a luz solar, sempre mergulhada na sombra das torres de escritórios que se apresentam à sua frente e atrás de si. Só pela uma da tarde é que aquele banco de metal, tapado por placas de metal atrás e dos lados, recebe uns restinhos de sol, que não chegam para fazer a fotossíntese a um trevozinho. E se durante o dia a paragem se revela um local sombrio e inospitaleiro, o que dizer da noite. Quase ninguém lá apanha autocarros; pelas nove da noite, que é quando este episódio se passa, já tudo está em casa, ninguém já está a trabalhar, o centro da cidade está desconfortavelmente deserto. Mas X, o nosso personagem, é excepção à regra. Guarda de um edifício de escritórios, só está autorizado a sair às oito e quarenta e cinco, quando o seu turno acaba e o de outro começa. E agora que o alarme tocou, quase que corre pelos corredores do prédio, embora mantenha a dignidade e consiga controlar todas as acções que derivam de um sentimento tão comum entre os mortais, a suadade. Portanto, vai a andar, passo largo e acelarado, para a sala de pessoal, despir a farda e vestir a roupa de todos os dias. Não há tempo para um duche, o autocarro parte às nove e sete e a paragem ainda fica longe. Ao sair do edifício, cruzou-se com o seu colega que vai agora trabalhar, cujo nome é também uma incógnita, não por capricho de um adolescente contador de histórias, mas porque não sabe mesmo o seu nome. Nunca trocaram mais que boas noites, para esse grau de intimidade não é preciso saber o nome.
Agora, fora da torre de escritórios, longe das câmaras de vigilância, X já pode correr, agora mais impelido por um infantil medo do escuro e do silêncio da cidade do que propriamente pelas saudades da esposa e do filho. Nos passeios, o rodopiar do lixo no chão contrasta com os milhões de passos que são dados durante o dia. Toda aquela selva de betão assusta-o, a altura vertiginosa dos prédios, o silêncio que perscruta as ruas vazias, o voo dos morcegos do medo e o grito dos corvos do receio.
Chegou finalmente, e ofegante, à avenida. Já avista a paragem, iluminada pela ténue luz de um candeeiro alto e velho. Olhou para o relógio, nove e dois. Ainda tem tempo, escusa de ir a correr, até porque faria uma figura ridícula em frente a um vulto que avista na paragem. Aproveitou para recuperar o fôlego e abrandar o batimento cardíaco, embora o rosado nas faces não vá desaparecer assim tão rápido. À medida que avança, o vulto torna-se mais nítido. É um homem, barba negra e cabelo desgrenhado, dedos entrelaçados entre os joelhos, cabeça encostada a uma das paredes da paragem, de olhos fechados e expressão sofredora. X sentou-se tentando fazer o mínimo barulho possível, para não acordar o homem. Em vão, bastou uma das nádegas de X repousar no metal para o estranho acordar sobressaltado. Olhou para X, esfregou a cara, abriu os braços num espriguiço e disse, com voz rouca e hálito a aguardente,
- Boa noite.
X respondeu com as mesmas palavras com uma timidez de criança assustada. Não gostava de problemas, e pessoa embriagada é quase sempre sinónimo de alguns. Pergunta-se o leitor como é que alguém tão assustadiço, tão frágil, mimado até, chegou ao posto de guarda. Bem, não só o coração tem razões que a própria razão desconhece, pelos vistos também este X tem essa característica.
- Está frio, disse o homem esfregando as mãos.
- Pois, balbuciou X.
Seguiu-se um pequeno silêncio. X olhou para o relógio: nove e seis. Esperava ansiosamente pela vinda do autocarro.
- Ouça, vou contar-lhe uma anedota.
Neste momento, X sentiu que o corpo lhe expulsara todo o líquido que tinha através dos poros. Este vulto seria, muito provavelmente, um daqueles maníacos que gosta de brincar com as vítimas antes de as decapitarem ou coisa que o valha. Ainda assim, X deixou-se ficar quieto, não respondendo. O estranho continou:
- Estão duas mulheres, tias do Jet Set, a jantar numa taberna no Entroncamento. Uma delas diz "Meu Deus, a comida daqui é horrível." e a outra responde "Sim, eu sei, e ainda por cima as doses são tão pequenas...".
O vulto riu ruidosamente, X manteve-se calado e olhou para o relógio. Nove e nove, o que se passaria com o autocarro?
- Sabe, esta piada aqui, resume mais ou menos a nossa vida. Cheia de solidão, tristeza, sofrimento e infelicidade e ainda passa demasiadamente depressa.
Os faróis do autocarro já se viam ao fundo da avenida. X, embora tivesse ouvido tudo o que o homem dissera, mantera-se imóvel. Olhou de soslaio quando ouviu alguns soluços e viu o estranho a chorar ao seu lado, como um bebé, as lágrimas a deslizarem pelo rosto imundo e indo-se depositar nos pêlos da barba. Como que atingido por um raio de piedade, X colocou a mão sobre o ombro do homem e perguntou
- O que se passa? Precisa de alguma coisa?
Já iluminados pela luz dos faróis do autocarro, o estranho voltou-se para ele e disse-lhe com uma dolorosa mágoa na voz,
- Preciso homem! Preciso de um abraço!

Apesar do atraso do autocarro, X chegou a casa à hora de sempre. Entrou na sua sala como se fosse um general vencido, cabisbaixo e pálido. A mulher foi ter com ele, dar-lhe as boas vindas a casa. Ele respondeu-lhe com um olhar vazio e um beijo no rosto.
- Vou-me lavar, disse.
O que se passou no interregno da viagem de autocarro, fica o leitor com o poder de o imaginar. Certo é que X, depois de despir, de caminhar para o poliban e de se pôr debaixo de água se deixou lá ficar por quase uma hora. E um pouco de água salgada misturou-se com a água doce que caía do chuveiro.

(livremente inspirado em Annie Hall, uma crónica que li algures e na vida de todos e de cada um)