O ser nasceu, cresceu, morreu. Tinha feito tudo como lhe tinham mandado os funcionários do guiché das repartições de novas almas. Seguiu todas as indicações e conselhos dados antes de sair disparado da vagina de sua mãe. E agora estava ali especado, numa fila interminável para aquisição de novo corpo. Tinha acabado sozinho, morto numa cama de um lar qualquer, abandonado pelos filhos, sobrinhos e netos. Da outra alma que o acompanhou na sua primeira vida nunca mais ouviu. Havia transitado de estado há tempo demais e se tivesse adquirido um novo corpo até já devia estar a meio da sua adultez.
E vai daí talvez não que isto de adquirir um novo corpo é coisa que demora e a fila parece nem andar. Estava ali parado há quanto tempo, mesmo? Bom, a bem ver já nem se lembrava de há quanto tempo tinha morrido! E tinha sido a sua primeira morte, imagine-se! É coisa digna de ser memorizada!
Olhou para as almas que tinha à frente. Que monotonia. Todas iguais, coisas incorpóreas sem uma forma definida, todas partilhando a mesma falta de tom, a mesma falta de cor, a mesma... coisa indescritível que faz com que uma alma seja uma alma. E estavam todas tão caladas. Se pensasse bem nem sabia se as almas podiam de facto falar.
Suspirou (ou fez o equivalente para uma alma) e voltou a focar-se nos seus pensamentos.
Morrer não tinha sido assim tão mau. Quer dizer, morrer sozinho e abandonado foi, mas passar de um lado para a porta não tinha sido, de todo, desagradável! Assim que o seu corpo fechou de vez os olhos do outro lado, a alma foi encaminhada para uma salinha cor de carvão onde todos os desígnios da Vida eram explicados. Pesquisar pelos seus arquivos era, obviamente, facultativo. Mas já que se ia esquecer de qualquer maneira de todo a Vida anterior e de toda a fase de transcendência, porque não dar uma olhadela. E o que viu deixou-o abismado.
Éons pareceram passar antes de chegar a sua vez. Vogou em frente (porque as almas não andam) e entrou na nova saleta. Daqui para a frente era fácil, sofria-se uma lavagem e estava-se apto a ter uma nova vida. E assim foi.
Assim que os funcionários do guiché da repartição de atribuição de novos corpos abriram o alçapão a alma fechou o equivalente aos olhos e deixou-se levar, deixou apagar tudo o que trazia dentro de si, toda a preocupação, toda a comoção, toda a memória...
E eis que chega o momento em que os olhos do corpo se abrem pela primeira vez. E assim que percebe quem o carrega, a última memória da alma deixa de existir. Pois quem o trazia aos braços era o corpo da alma que a primeira vez o acompanhou.
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segunda-feira, 24 de maio de 2010
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Chuvas
Trovejava o céu acima das suas cabeças, despejavam-se as nuvens sobre as suas frontes, caía o desespero sobre os seus corpos, o cansaço abatia-se sobre as suas mentes. Haviam sido dias, semanas de luta constante, uma luta descomunal de constante reconstrução e destruição. E nenhum dos dois cederia. Acabaria primeiro o tempo antes de um deles cair, findaria o espaço antes de um deles desistir. Entre os dois apenas o vazio, a distância de uma luta travada. Pedaços de dor encontravam lugares nos seus corações, lugares de dor albergavam pedaços de luz.
Mas a luta havia findado e a única coisa que agora lutava eram os seus olhos, as suas vontades.
Viraram costas um para o outro e seguiram o seu caminho. E agora não era apenas o céu que chovia. Não era só o céu que bradava.
Mas a luta havia findado e a única coisa que agora lutava eram os seus olhos, as suas vontades.
Viraram costas um para o outro e seguiram o seu caminho. E agora não era apenas o céu que chovia. Não era só o céu que bradava.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Névoa
Preso à cadeira, o corpo já não lutava. Tinha perdido toda a vontade, toda a esperança, o seu mundo tinha ficado de pernas para o ar. O seu cativeiro durava à pelo menos doze horas, durante as quais Ele se alimentava, Ele se aliviava. A pobre garota já não sabia o que fazer, o que dizer. Era este monstro o seu namorado?
Ela lembrava-se do início da relação... da corte tímida dele e dos seus gestos envergonhados. No final tinha sido Ela a convidá-lo a sair. Tempos áureos... Tinham sido felizes, tinham sido um casal, mais que isso talvez, tinham sido Um.
Mas agora Ele revelava o seu lado sombrio. Um lado mais escondido que a poucos se revelava, e pelos vistos os que o viam não ficavam para contar a história dele...
E as forças delas esgotavam-se. O sangue escorria-lhe pela cara proveniente dos dois longos cortes que Ele lhe tinha infligido na testa e por baixo do olho. O cansaço apossava-se-lhe da mente como uma névoa morna... A dor deixava de existir. Agora só cansaço. Cansaço e paz. A morte estava próxima. O seu derradeiro suspiro.
e o Silêncio.
Ela lembrava-se do início da relação... da corte tímida dele e dos seus gestos envergonhados. No final tinha sido Ela a convidá-lo a sair. Tempos áureos... Tinham sido felizes, tinham sido um casal, mais que isso talvez, tinham sido Um.
Mas agora Ele revelava o seu lado sombrio. Um lado mais escondido que a poucos se revelava, e pelos vistos os que o viam não ficavam para contar a história dele...
E as forças delas esgotavam-se. O sangue escorria-lhe pela cara proveniente dos dois longos cortes que Ele lhe tinha infligido na testa e por baixo do olho. O cansaço apossava-se-lhe da mente como uma névoa morna... A dor deixava de existir. Agora só cansaço. Cansaço e paz. A morte estava próxima. O seu derradeiro suspiro.
e o Silêncio.
sábado, 25 de abril de 2009
O bicho papão
Escondido debaixo das mantas, o menino aguardava. Envolto em medo o petiz esperava. O peso dos cobertores era um conforto. Lá fora, fora da cama, isto é, o quarto repousava no escuro. Lá fora, fora das quatro paredes, o vento rugia, os ramos das árvores batiam nos vidros (como num cliché de um desesperado filme de terror sem audiência). O tempo não estava para brincadeiras e a tempestade parecia avizinhar-se.
O garoto tremia, receoso, do papão que o viesse buscar. O papão, bicho mitológico de estórias desaparecidas que se parecia alimentar de carne de crianças inocentes, e garotos mal-comportados. O medo, mais que irracional era desnecessário pois se era de crianças que o papão se alimentava, este rapaz não tinha nada a temer. Criança era coisa que já não era ou pelo menos pensava não ser Estava naquela fase da adolescência, a incerteza e a insegurança toldavam-lhe o rumo a tomar, e o menino parecia perder-se cada vez mais nos seus medos. Mas esquecendo a idade do alvo, o gaiato tremia nervosamente, sentindo um tal pânico com nunca tinha sentido, destrutor de toda a possível razão. Resolveu aguardar e a ansiedade lá baixou. Necessitava de ajuda, companhia. Habituado a que lhe aquiescessem aos pedidos, resolveu sair da cama e dirigir-se ao salão na senda de um criado, a governanta ou mesmo o velho mordomo lhe fizesse companhia.
Pé ante pé, na semi-obscuridade, o garoto lá ia indo sem muito medo. Dez passos volvidos e o temor parecia descer. Ao fim do corredor, o medo parecia ter-se evaporado. Eis senão quando uma sombra na escuridão surge de um refugiado canto. O coraçãozinho a palpitar, a pele a suar, os membros do corpo a enrijecer e o miúdo já não saía do lugar. Estranhos rugidos gargalhantes pareciam assombrar a casa. Rangeres estranhos, suspiros abafados de quem não se quer excitar com a presa. Os olhos da criança brilhavam das lágrimas que lhe caíam. A sombra aproximava-se e não havia fuga. Chegava-se a ele como um estranho pano de seda: macio, leve e fresco... O terror apossava-se dos pensamentos do pequenino. O fim estava próximo.
Acordou no meio de sussurros e suspiros seus, encharcado no meio de suor. Estava seguro, estava a salvo, a manhã chegara. Atreveu-se a pôr os pés fora da cama. Nunca chegou a tocar no chão. Debaixo da cama esperava o comedor de crianças.
Porque meus petizes, não é no desconhecido que reside o desafio, não é do papão que devemos ter medo, não é do escuro nem dos ruído da noite... O medo não passa disso mesmo, medo.
O problema é quando nos deixamos tomar por ele. A criança não morreu obviamente. Apenas tropeçou num desterrado brinquedo e caiu de boca no chão. Ninguém o manda ser desarrumado.
O garoto tremia, receoso, do papão que o viesse buscar. O papão, bicho mitológico de estórias desaparecidas que se parecia alimentar de carne de crianças inocentes, e garotos mal-comportados. O medo, mais que irracional era desnecessário pois se era de crianças que o papão se alimentava, este rapaz não tinha nada a temer. Criança era coisa que já não era ou pelo menos pensava não ser Estava naquela fase da adolescência, a incerteza e a insegurança toldavam-lhe o rumo a tomar, e o menino parecia perder-se cada vez mais nos seus medos. Mas esquecendo a idade do alvo, o gaiato tremia nervosamente, sentindo um tal pânico com nunca tinha sentido, destrutor de toda a possível razão. Resolveu aguardar e a ansiedade lá baixou. Necessitava de ajuda, companhia. Habituado a que lhe aquiescessem aos pedidos, resolveu sair da cama e dirigir-se ao salão na senda de um criado, a governanta ou mesmo o velho mordomo lhe fizesse companhia.
Pé ante pé, na semi-obscuridade, o garoto lá ia indo sem muito medo. Dez passos volvidos e o temor parecia descer. Ao fim do corredor, o medo parecia ter-se evaporado. Eis senão quando uma sombra na escuridão surge de um refugiado canto. O coraçãozinho a palpitar, a pele a suar, os membros do corpo a enrijecer e o miúdo já não saía do lugar. Estranhos rugidos gargalhantes pareciam assombrar a casa. Rangeres estranhos, suspiros abafados de quem não se quer excitar com a presa. Os olhos da criança brilhavam das lágrimas que lhe caíam. A sombra aproximava-se e não havia fuga. Chegava-se a ele como um estranho pano de seda: macio, leve e fresco... O terror apossava-se dos pensamentos do pequenino. O fim estava próximo.
Acordou no meio de sussurros e suspiros seus, encharcado no meio de suor. Estava seguro, estava a salvo, a manhã chegara. Atreveu-se a pôr os pés fora da cama. Nunca chegou a tocar no chão. Debaixo da cama esperava o comedor de crianças.
Porque meus petizes, não é no desconhecido que reside o desafio, não é do papão que devemos ter medo, não é do escuro nem dos ruído da noite... O medo não passa disso mesmo, medo.
O problema é quando nos deixamos tomar por ele. A criança não morreu obviamente. Apenas tropeçou num desterrado brinquedo e caiu de boca no chão. Ninguém o manda ser desarrumado.
quinta-feira, 2 de abril de 2009
O homem e o seu cavalo...
O cavalo galopava freneticamente pela floresta. Segundo a segundo a sua velocidade aumentava. Curtos clarões de negro espalhavam-se pela floresta. A única coisa que mantinha o homem ainda em cima do cavalo era o dever porque a força já à muito havia sido consumida. A armadura pesava-lhe, o suor cegava-o, o calor matava-o. Apenas o dever o mantinha vivo. O dever, o maldito dever. A vontade régia que o cingia a um contrato que não queria honrar. Mas o passado não lhe interessava agora.
O cavalo acelerava por entre os carvalhos sem que se lhe fosse dada nenhuma ordem. A mente do homem confundia-se com a mente do cavalo, uma só mente meio homem, meio animal que governava um ser de seis pernas e dois braços que se movia inconscientemente pelas sombras. No alto das árvores, as sombras também se moviam. Mais rápidos do que o olho humano pode processar, os vultos saltavam de árvore em árvore, de ramo em ramo de folha em folha. O peso não os atrapalhava, a matéria não os entravava.
O incauto cavaleiro seguia o seu caminho o mais rápido que podia. Inconsciente do perigo que corria. O cavalo galopava ofegante, consumindo a réstia de energia que tinha. A noite alastrava-se pelo céu como tinta num charco.
Três homens caminhavam lentamente pelo chão da floresta. Seguiam marcas de sangue à muito deixadas naqueles trilhos. Rapidamente chegaram ao seu destino. Dos ramos pendiam restos de homem, restos de animal, uma visão grotesca para o homem comum. O sangue fora-lhes extraído dos corpos como precioso néctar. Nos chão, a escrita dos vampiros avisava:
Os três homens entreolharam-se. O primeiro tinha caído. Apenas três faltavam. Aproximaram-se do homem e rasgaram-lhe a armadura com as mãos. No seu pescoço seis pequenos buracos ainda pulsavam. Um pequeno pendente balouçava ao sabor do vento. Eis a primeira chave.
Os três homens esperaram a noite cair. Assim que o último pedaço de sol desapareceu por detrás do horizonte e a noite se apossou do mundo, os homens desfizeram-se na sombra e dirigiram-se ao próximo alvo.
O cavalo acelerava por entre os carvalhos sem que se lhe fosse dada nenhuma ordem. A mente do homem confundia-se com a mente do cavalo, uma só mente meio homem, meio animal que governava um ser de seis pernas e dois braços que se movia inconscientemente pelas sombras. No alto das árvores, as sombras também se moviam. Mais rápidos do que o olho humano pode processar, os vultos saltavam de árvore em árvore, de ramo em ramo de folha em folha. O peso não os atrapalhava, a matéria não os entravava.
O incauto cavaleiro seguia o seu caminho o mais rápido que podia. Inconsciente do perigo que corria. O cavalo galopava ofegante, consumindo a réstia de energia que tinha. A noite alastrava-se pelo céu como tinta num charco.
Três homens caminhavam lentamente pelo chão da floresta. Seguiam marcas de sangue à muito deixadas naqueles trilhos. Rapidamente chegaram ao seu destino. Dos ramos pendiam restos de homem, restos de animal, uma visão grotesca para o homem comum. O sangue fora-lhes extraído dos corpos como precioso néctar. Nos chão, a escrita dos vampiros avisava:
"Idiota é o homem maldito que julga fugir à maldição. Pois da maldição nem a morte os liberta."
Os três homens entreolharam-se. O primeiro tinha caído. Apenas três faltavam. Aproximaram-se do homem e rasgaram-lhe a armadura com as mãos. No seu pescoço seis pequenos buracos ainda pulsavam. Um pequeno pendente balouçava ao sabor do vento. Eis a primeira chave.
Os três homens esperaram a noite cair. Assim que o último pedaço de sol desapareceu por detrás do horizonte e a noite se apossou do mundo, os homens desfizeram-se na sombra e dirigiram-se ao próximo alvo.
domingo, 15 de março de 2009
Quando a cabeça não tem juízo...
Era uma bela colina. Um daqueles pormenores numa paisagem que ninguém pode ignorar. "Verdejante", diriam os autores de escrituras complexas e demasiado intelectuais que estripariam o sentido de uma boa paisagem (algo para se ver, não para se ler). Mas sigamos ao que nos traz aqui: conhecem aquela estúpida expressão de que "vão rolar cabeças"? Uma expressão um pouco patética diria eu... Ainda assim, e ironicamente estava mesmo uma cabeça a rolar colina abaixo. Era uma cabeça de alguém, isso era certo e seguia entretida numa corrida colina abaixo. Quem olhasse para a cabeça não diria que estava divertida, talvez pelo esgar de dor do anterior dono eternamente capturado num amontoado de músculos e ossos ou talvez porque (diriam os mesmos autores) uma cabeça por si só não tem com que se divertir. Finalmente livre dos tendões que a prendiam ao corpo idiótico de um humano apático e algo anafado, estava feliz (na medida em que uma cabeça é capaz de estar feliz quando separada do corpo, o que vendo bem, ainda é alguma coisa.)
As crianças no parque infantil olhavam divertidas para aquilo que parecia uma bola disforme a saltitar campo fora, colina abaixo. Os adultos que olhavam pelas crianças discutiam a irresponsabilidade de se deixar uma bola rolar e saltitar colina abaixo. Imaginemos por momentos o que pensariam se soubessem que era uma cabeça...
À medida que ia ganhando velocidade, a cabeça pensava na antiga vida que tinha tido. Não tinha sido nada de especial, uma vida normal (pelo menos até ter sido degolada) mas agora era uma cabeça livre, uma coisa rara nos dias de hoje, essa coisa de se ser livre... A colina parecia estar a terminar. Um ressalto depois estava agora no meio de uma auto-estrada, a saltitar entre bermas. Segundos depois lá parou. Mesmo no meio de uma faixa.
O camionista ia despreocupado. A carga estava bem posta e estava a conseguir cumprir o horário.
A cabeça viu o monstro metálico aproximar-se
O camionista viu o objecto estranho no meio da estrada.
A cabeça pensou "FOOOOGE!" mas as pernas não se mexeram.
O camionista analisou melhor o que lhe parecia seu um obeso animal
"Merda, as pernas ficaram com o corpo."
"Espera lá! Aquilo é uma cabeça!"
SPLHERGHSH
Se calhar ser uma cabeça sem corpo não é assim tão bom...
As crianças no parque infantil olhavam divertidas para aquilo que parecia uma bola disforme a saltitar campo fora, colina abaixo. Os adultos que olhavam pelas crianças discutiam a irresponsabilidade de se deixar uma bola rolar e saltitar colina abaixo. Imaginemos por momentos o que pensariam se soubessem que era uma cabeça...
À medida que ia ganhando velocidade, a cabeça pensava na antiga vida que tinha tido. Não tinha sido nada de especial, uma vida normal (pelo menos até ter sido degolada) mas agora era uma cabeça livre, uma coisa rara nos dias de hoje, essa coisa de se ser livre... A colina parecia estar a terminar. Um ressalto depois estava agora no meio de uma auto-estrada, a saltitar entre bermas. Segundos depois lá parou. Mesmo no meio de uma faixa.
O camionista ia despreocupado. A carga estava bem posta e estava a conseguir cumprir o horário.
A cabeça viu o monstro metálico aproximar-se
O camionista viu o objecto estranho no meio da estrada.
A cabeça pensou "FOOOOGE!" mas as pernas não se mexeram.
O camionista analisou melhor o que lhe parecia seu um obeso animal
"Merda, as pernas ficaram com o corpo."
"Espera lá! Aquilo é uma cabeça!"
SPLHERGHSH
Se calhar ser uma cabeça sem corpo não é assim tão bom...
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
O caçador
(para ler ao som disto)
A faca retinia no osso como um badalo de um sino. Movimentos artísticos manchavam, marcavam e sujavam. Corte a corte a vítima esvaía-se. Uma dança descompassada de braços e mãos trouxera o horror a um pobre corpo onde antes existia uma Vida. Não tinha sido um morte violenta. Não tinha sido sequer excitante. Apenas uma saciação funesta de um desejo. Não era sexo, não era droga, era melhor. Era o calor, o cheiro, o sabor férreo do sangue. Algo que não conseguia descrever. Um impulso, uma obsessão. Mas ainda assim, o que o mais excitava não era o sangue, não era matar, não era o doce som do gorgolejar do sangue a acumular-se onde antes estava uma traqueia. Era a caça. A procura incessante de um alvo frágil, de um esboçar de um movimento de fraqueza e permissão.
Na rua as horas passavam como se o tempo se apressasse para chegar a algum lugar...
Retalhara o corpo até se desfazer numa papa escarlate e branca. Desfizera-se no seu próprio prazer. Descansava agora prazenteiramente sob as cobertas de lã. Quem para si olhasse diria tratar-se de um anjo, de louros caracóis e de pálida tez. De traços simples e atractivos era o deleite de olhares menos prudentes. O único defeito que tinha era o interior. O pequeno demónio alojado no seu corpo. Mas nos seguintes dias poderia descansar, ele e a cidade... Mas dentro de menos uma semana estaria de volta às ruas. Um caçador, precisa afinal de caçar.
A faca retinia no osso como um badalo de um sino. Movimentos artísticos manchavam, marcavam e sujavam. Corte a corte a vítima esvaía-se. Uma dança descompassada de braços e mãos trouxera o horror a um pobre corpo onde antes existia uma Vida. Não tinha sido um morte violenta. Não tinha sido sequer excitante. Apenas uma saciação funesta de um desejo. Não era sexo, não era droga, era melhor. Era o calor, o cheiro, o sabor férreo do sangue. Algo que não conseguia descrever. Um impulso, uma obsessão. Mas ainda assim, o que o mais excitava não era o sangue, não era matar, não era o doce som do gorgolejar do sangue a acumular-se onde antes estava uma traqueia. Era a caça. A procura incessante de um alvo frágil, de um esboçar de um movimento de fraqueza e permissão.
Na rua as horas passavam como se o tempo se apressasse para chegar a algum lugar...
Retalhara o corpo até se desfazer numa papa escarlate e branca. Desfizera-se no seu próprio prazer. Descansava agora prazenteiramente sob as cobertas de lã. Quem para si olhasse diria tratar-se de um anjo, de louros caracóis e de pálida tez. De traços simples e atractivos era o deleite de olhares menos prudentes. O único defeito que tinha era o interior. O pequeno demónio alojado no seu corpo. Mas nos seguintes dias poderia descansar, ele e a cidade... Mas dentro de menos uma semana estaria de volta às ruas. Um caçador, precisa afinal de caçar.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
"Avance até à casa de Partida"
Permeava-lhe os olhos uma larga camada de lágrimas, daquelas que fazem os olhos vermelhos, inchados e que cansam as pálpebras. O seu esforço para não chorar era quase hercúleo. Não queria desfazer-se em mil pedaços cristalinos em frente deles. Não o mereciam.
Já há muito que não tinha uma tão súbita vontade de chorar assim. Lembrava-se da primeira vez, de quando o seu pequeno peixe dourado havia fugido cano da sanita abaixo; e da última vez, quando proferira a derradeira despedira da sua mãe. Das duas vezes fizera o mesmo que fazia agora: mostrar-se impávido e sereno como quem descasca uma cebola e não quer parecer fraco. Mas desta vez era diferente, desta vez sabia que não teria mais um momento só, que o seu desespero seria mais tarde ou mais cedo revelado. Os olhos pesavam-lhe. Da dor, do sono, do peso da vida, do medo...
Olhou em seu redor. Das outras quatro pessoas que ali estavam apenas três estavam em pé e vivas. A quarta, inerte no meio do chão, já partira há minutos. Tinha sido uma boa vida, teria boas memórias para partilhar se ao menos o pudessem chegar a ser.
Dos três que estavam de pé apenas um o mirava. De olhos vivazes e de estatura mediana, o jovem estava visivelmente assustado. Principiante.
Dos dois que não o miravam apenas um trazia a pistola de fora. Desconfiado.
O que restava remexia violentamente as caixas para encontrar o que procurava no sítio que lhe indicara. O veterano.
Um abafado "A-ha!" ecoou pela morta sala. A caixa de Monopólio foi puxada de debaixo de uma panóplia de jogos de tabuleiro e foi posta numa silenciosa mesa. A tampa foi parcimoniosamente aberta e num misto de excitação e horror o veterano esgazeado voltou-se para o homem prostrado no chão.
"Perguntaste pelo dinheiro, e eu disse que não o tinha. Tornaste a perguntar, disse-te que o dinheiro que tinha estava na caixa de Monopólio" foram as suas últimas palavras... O estampido parecia-lhe ter-se feito ouvir já à muito mas continuava a chorar. Os pequenos cristais que lhe rolavam pela face pareciam inundar-lhe os pulmões.Voltou à posição fetal e continuou a chorar durante o que lhe pareceram ser meses.
Quando voltou a abrir os olhos chorou de goelas abertas, como se disso dependesse a sua vida. Grandes e fortes mãos carregavam-no para um lugar mais terno, para o colo da sua mãe.
Já há muito que não tinha uma tão súbita vontade de chorar assim. Lembrava-se da primeira vez, de quando o seu pequeno peixe dourado havia fugido cano da sanita abaixo; e da última vez, quando proferira a derradeira despedira da sua mãe. Das duas vezes fizera o mesmo que fazia agora: mostrar-se impávido e sereno como quem descasca uma cebola e não quer parecer fraco. Mas desta vez era diferente, desta vez sabia que não teria mais um momento só, que o seu desespero seria mais tarde ou mais cedo revelado. Os olhos pesavam-lhe. Da dor, do sono, do peso da vida, do medo...
Olhou em seu redor. Das outras quatro pessoas que ali estavam apenas três estavam em pé e vivas. A quarta, inerte no meio do chão, já partira há minutos. Tinha sido uma boa vida, teria boas memórias para partilhar se ao menos o pudessem chegar a ser.
Dos três que estavam de pé apenas um o mirava. De olhos vivazes e de estatura mediana, o jovem estava visivelmente assustado. Principiante.
Dos dois que não o miravam apenas um trazia a pistola de fora. Desconfiado.
O que restava remexia violentamente as caixas para encontrar o que procurava no sítio que lhe indicara. O veterano.
Um abafado "A-ha!" ecoou pela morta sala. A caixa de Monopólio foi puxada de debaixo de uma panóplia de jogos de tabuleiro e foi posta numa silenciosa mesa. A tampa foi parcimoniosamente aberta e num misto de excitação e horror o veterano esgazeado voltou-se para o homem prostrado no chão.
"Perguntaste pelo dinheiro, e eu disse que não o tinha. Tornaste a perguntar, disse-te que o dinheiro que tinha estava na caixa de Monopólio" foram as suas últimas palavras... O estampido parecia-lhe ter-se feito ouvir já à muito mas continuava a chorar. Os pequenos cristais que lhe rolavam pela face pareciam inundar-lhe os pulmões.Voltou à posição fetal e continuou a chorar durante o que lhe pareceram ser meses.
Quando voltou a abrir os olhos chorou de goelas abertas, como se disso dependesse a sua vida. Grandes e fortes mãos carregavam-no para um lugar mais terno, para o colo da sua mãe.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
A escrivaninha
"Quando era mais criança, o teu pai sentava-se àquela escrivaninha a ler grandes livros de coisas que eu nunca percebi bem o que eram..." dizia uma avó embevecida a um irrequieto e pequeno neto. Contava-lhe os tempos que o jovem não tinha vivido, tempos de ouro esbatido com o tempo mas que retinham o seu valor. O petiz ouvia embalado na cândida voz da sabedoria. Ouvia histórias e estórias sobre a vida de outrora, sobre a geração anterior à dele e da geração anterior a essa e com todas o pequeno rapaz aprendia. Dentro dele pequenas sementes eram plantadas e regadas para um dia germinarem. E horas depois, depois da história do seu nascimento, o pequeno garoto levantou-se do colo da imóvel avó e dirigiu-se a casa, duas portas acima passo a passo. Bateu à porta e atendeu-lhe a mãe exclamando, num tom demasiado alegre e estridente, um "Tão cedo? Já te fartaste das histórias da avó?". A única coisa que o rapaz respondeu foi um penoso mas duro "Mãe, a Avó morreu."
O petiz cresceu um pouco com os anos, aquele efeito secundário de que ninguém quer padecer, e foi visitar a campa da avó. Haviam passado exactamente dez anos. Todos os anos ali passava naquela data, todo os anos lhe relatava o que tinha aprendido, o que tinha crescido.
"A escrivaninha mantém-se no mesmo sítio. Passei lá ontem a noite, entre os livros do Pai e o café que me ensinaste a fazer", contava-lhe o neto. Nunca tinha chorado a morte da Avó, nem a morte do Pai antes dessa. Da morte do Avô não se lembrava, tinha acontecido antes mesmo de ele ter sido devidamente planeado. Uma morte brutal numa qualquer Guerra ceifeira de vidas. A única coisa que tinha dele era o olhar, dissera-lhe uma vez a Avó. Um olhar partilhado também pelo Pai.
As histórias do ano que tinham passado eram contadas em fiada, umas a seguir às outras. quando terminou, depositou o pequeno ramo de violetas sobre a campa e virou-lhe costas por um ano. Ao chegar a casa, pôs a cafeteira ao lume e pôs-se em frente à grande pilha de livros e folhas que ocultavam a velha escrivaninha...
Anos e anos se passaram. Nascimentos, mortes, tragédias, alegrias... O leve passar dos anos como vem sendo habitual...
"Quando era mais criança, o teu pai sentava-se àquela escrivaninha a desenhar enquanto eu lhe lia os velhos livros do meu Pai" dizia um avô saudoso a uma calma e atenta neta ao seu colo... E uma vez mais as sementes eram lançadas em novas e férteis terras enquanto as velhas plantas murchavam pela última vez...
[Z]
O petiz cresceu um pouco com os anos, aquele efeito secundário de que ninguém quer padecer, e foi visitar a campa da avó. Haviam passado exactamente dez anos. Todos os anos ali passava naquela data, todo os anos lhe relatava o que tinha aprendido, o que tinha crescido.
"A escrivaninha mantém-se no mesmo sítio. Passei lá ontem a noite, entre os livros do Pai e o café que me ensinaste a fazer", contava-lhe o neto. Nunca tinha chorado a morte da Avó, nem a morte do Pai antes dessa. Da morte do Avô não se lembrava, tinha acontecido antes mesmo de ele ter sido devidamente planeado. Uma morte brutal numa qualquer Guerra ceifeira de vidas. A única coisa que tinha dele era o olhar, dissera-lhe uma vez a Avó. Um olhar partilhado também pelo Pai.
As histórias do ano que tinham passado eram contadas em fiada, umas a seguir às outras. quando terminou, depositou o pequeno ramo de violetas sobre a campa e virou-lhe costas por um ano. Ao chegar a casa, pôs a cafeteira ao lume e pôs-se em frente à grande pilha de livros e folhas que ocultavam a velha escrivaninha...
Anos e anos se passaram. Nascimentos, mortes, tragédias, alegrias... O leve passar dos anos como vem sendo habitual...
"Quando era mais criança, o teu pai sentava-se àquela escrivaninha a desenhar enquanto eu lhe lia os velhos livros do meu Pai" dizia um avô saudoso a uma calma e atenta neta ao seu colo... E uma vez mais as sementes eram lançadas em novas e férteis terras enquanto as velhas plantas murchavam pela última vez...
[Z]
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
O colectivo
Ouçam-me pobres jovens iletrados, o fim está próximo! O fim da monotonia, claro está. Chegaram de longe e demoraram. Um grupo heterogéneo de jovens que aqui está para mudar a vida de muitos ou de muito poucos. Uma trupe de aprendizes de escritor que vos veio então chatear.
Apresentando o Colectivo:
Pedro - A chuva molhada
Salomé - Mind, Body and Soul
Rita - Girls of Power & "Para estranho basta o mundo real"
Leonor - Girls of Power
Zé - Apetece-me morrer
Acompanhem-nos então na saga pelos Mundos mentais de cada um destes jovens meios tresloucados com muito ou muito pouco para vos dar ou ensinar.
Sem delongas,
O idealista.
Apresentando o Colectivo:
Pedro - A chuva molhada
Salomé - Mind, Body and Soul
Rita - Girls of Power & "Para estranho basta o mundo real"
Leonor - Girls of Power
Zé - Apetece-me morrer
Acompanhem-nos então na saga pelos Mundos mentais de cada um destes jovens meios tresloucados com muito ou muito pouco para vos dar ou ensinar.
Sem delongas,
O idealista.
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